Entrevista

 Na única apresentação no Estado, no último mês de novembro, na turnê “Jota Quest Acústico – Músicas para cantar junto”, a Rede Interferência entrevistou Flausino, com exclusividade, momentos antes dos mineiros subirem ao palco da Área de Eventos do Shopping Vila Velha

Foto: Maria Felicidade
Rede Interferência, representado pelo acadêmico Renatto Manga nos backstage do show com Rogério Flausino

 

 Com vinte e um anos de estrada no vocal de uma das bandas mais respeitadas do Brasil e com um vasto repertório, Rogério Flausino recebeu a Rede Interferência – portal dos cursos da área de Comunicação da Estácio Vitória na internet, para um bate-papo onde o líder do Jota Quest compartilhou informações sobre o período em que a banda sentiu o desejo de gravar um projeto acústico, a transição de Jonny Quest para Jota Quest em 1998 e as inspirações que o levou a compor a canção “Daqui só se leva o Amor”. Dentre outros assuntos, falou também do mercado digital que vem dia após dia tomando seu espaço.

Confira na íntegra todos os detalhes desse revelador bate-papo:

O Espírito Santo é considerado o quintal da casa de vocês. Como é a recepção do público capixaba?

– Com todo respeito do mundo, consideramos o Espírito Santo como uma extensão da nossa casa, nossa Minas Gerais. É sempre muito gratificante visitar o Estado seja para apresentar nossas tournês ou até mesmo passeios em família. Não recordo uma tour do Jota Quest que não tenha passado pelo Espírito Santo. Nosso público capixaba é sempre muito fiel, sempre lota nossos shows e proporciona com muito carinho uma vibe única a cada canção. Gostaria de registrar que esse carinho é mútuo.

Como nasceu a ideia de registrar um projeto acústico após 21 anos de carreira?

– Na verdade, um acústico sempre foi uma grande vontade do Jota Quest. Lembro que essa vontade aumentou quando a MTV trouxe para o Brasil o formato americano de fazer projetos acústicos. Porém, na época chegamos à conclusão que deixaríamos para mais tarde, quando um repertório mais vasto ocupasse nossa trilha. E isso aconteceu agora, nos nossos 21 anos de carreira. Está sendo muito especial a tour “Jota Quest Acústico – Músicas para cantar junto”, que pensamos em todos os detalhes, desde o palco aos nossos ilustres convidados.

Foto: César Ovalle
Milton Nascimento no palco do DVD Acústico do Jota Quest na canção “O Sol”

 

 E o convite, em especial, da participação do Milton Nascimento como ocorreu?

– Nosso carinho por Milton Nascimento é imenso, vai muito além da música. Um dos nossos maiores objetivos era sua participação no acústico. E não poderia ser em outra canção que não fosse “O sol”. Milton tem um carinho especial pela canção de Antônio Júlio Nastácio, já gravou e cantou em diversas oportunidades. O resultado dessa parceria em nosso álbum acústico será eternamente guardado no meu coração. Milton, além de ser uma lenda da música brasileira, é um ser humano incrível, sempre que estou com ele tenho uma certeza: serão momentos de ricos aprendizados para a vida pessoal e profissional.

No final da década de 1990, a banda optou por mudar o nome de Jonny Quest para Jota Quest para evitar futuros contratempos com a empresa Hanna-Barbera, criadora do desenho animado Jonny Quest. Há uma teoria que diz que a mudança foi sugestão de Tim Maia. Até onde o crítico artista carioca tem influência nessa transição?

– Realmente, o Tim Maia tem influência nessa transição. Quando assinamos com a Sony Music, acredito que o nome “Jonny Quest” tenha incomodado a Hanna-Barbera, pois se trata de duas das maiores produtoras do entretenimento mundial. Foi aí que recebemos um e-mail da Hanna a princípio questionando o uso do nome; daí começamos a pensar em um novo nome. Lembro que ficamos meio perdidos e se perguntando: ‘Como assim, mudar o nome?’. “Jonny Quest” era pichado em nossos materiais de show e todo mundo conhecia aqueles cinco mineiros que tinham o sonho de transformar o mundo (risos) com esse nome. Até que, em meio a todo esse barulho, estávamos nós nos backstage de um grande festival que ocorreu no sul do país em 1998, mais especificamente em Florianópolis, e no palco Tim Maia realizava seu show. Muito louco e de um alto astral incrível, ele agradeceu a presença da então banda “Jota Quest”. Lembro que ele repetiu umas três ou quatro vezes e ninguém do grande público imaginava que ele se referia a nós. Ali ocorreu o batismo do “Jota Quest” e nossa eterna homenagem ao Tim Maia pois, um mês depois, ele morreu!

 

“Usei a ideia de dar valor aos bons momentos,

fidelizar tudo isso aqui na terra pensando até mesmo na eternidade,

no alto.”

 Rogério Flausino

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VÍDEO

Rogério, você compôs “Daqui só se leva o amor”, que ganhou a última faixa do álbum “Pancadélico”. Como nasceu essa canção que vem sendo elogiada pela crítica especializada?

– Cara, essa música eu compus em homenagem ao Chorão e meu sogro, que morreram em datas próximas e circunstâncias muito parecidas. Só de lembrar desses momentos fico muito emocionado. Não apresentei a canção aos meninos de imediato, ela ficou guardada um tempo. Usei a ideia de dar valor aos bons momentos, fidelizar tudo isso aqui na terra pensando até mesmo na eternidade, no alto. Quando minha mãezinha me deixou, ela (a música) voltou a ser um alento para mim, e aí resolvi compartilhá-la com os meninos da banda. Assim ela ganhou o álbum “Pancadélico”. Eu não tinha ideia que essa canção poderia ser tão bem aceita como está sendo e confesso: até hoje é complicado para cantá-la.

Até 2013 o Jota Quest era líder de downloads pagos no Brasil. Em meio à era digital esse método vem cada vez mais sendo utilizado pelas gravadoras substituindo o material físico. A era digital tem correspondido às expectativas financeiras das gravadoras, artistas e bandas?

– Realmente temos esse número na história do Jota Quest. O Brasil demorou muito para evoluir com o digital e com as suas principais plataformas como Spotify e Deezer, por exemplo, foram mais de dez anos de atraso. A realidade é uma só: os artistas e gravadoras ainda estão procurando um modo que realmente dê retorno para ambos. Hoje, as pessoas têm como objetivo pagar, vamos dizer R$ 9,99, e ter acesso a tudo, fora os acessos abertos como o You Tube, por exemplo. Sem dúvida, no tempo do físico o retorno era muito maior para a gravadora e seus respectivos artistas.

A banda Jota Quest é proprietária de um dos estúdios mais respeitados do Brasil, o Minério de Ferro, e já se tornou palco de projetos fonográficos e fotográficos de renomados artistas. A ideia da criação do estúdio sempre foi alcançar toda a classe artística ou essa foi uma ideia que veio com o tempo?

– Não, não! A princípio era apenas para o Jota Quest passar seu som e utilizar de alguma forma. Esse ano o Estúdio Minério de Ferro completa dez anos, investimos muito nele e hoje realmente é procurado por muitos amigos para realizar ensaios, trabalhos e até mesmo grandes projetos. Tudo isso ocorreu sem nenhuma pretensão e, de certa forma, ficamos muito felizes em ter esse reconhecimento com o estúdio em Minas. Ele (o estúdio) é o filhão do Jota Quest.

Foto: Daniela Pessoa
O protesto era parte até mesmo do figurino escolhido por Rogério Flausino no Palco Mundo do Rock In Rio

 

No Rock In Rio, durante a canção “De volta ao Planeta dos Macacos”, a banda protagonizou um momento de protesto ao caos político que o Brasil vem enfrentando e foi ovacionada pelo público na cidade do Rock. O inevitável “Fora Temer” ecoou: atualmente vocês têm percebido um retorno do interesse jovem na vida política do país?

– Acredito que o jovem sempre foi um dos principais precursores dos gritos contra a classe política. Porém, tudo que vem ocorrendo em nosso cenário político está cansando a todos. O jovem vem se reerguendo desse “cansaço” e promovendo esses momentos em apresentações artísticas. O Jota Quest cumpriu sua obrigação em trazer o momento político vivido no país para o Palco Mundo do Rock In Rio e acredito que transmitimos nossa mensagem sem ruído através dessa canção que também é um grito e um grande orgulho do repertório do Jota Quest.

“Propina daqui, jeitinho de lá”. Esse verso da canção “Risco Brasil” pode ser considerado uma crítica tanto aos políticos quanto aos eleitores brasileiros. Você concorda que os representantes políticos são reflexos da população? Como vocês percebem a importância de canções com reflexões políticas para a discussão de um país melhor?

– Olha, de certa forma, até pode ser. Porém, não podemos culpar os eleitores desse caos que o Brasil vem enfrentando com os seus políticos. O povo tem como parâmetro de voto aquele que se apresentou e propôs seu plano de governo na TV e em suas plataformas. O brasileiro elegeu esse político, o que ocorreu no caminho é o que temos que discutir. Leis têm que ser mudadas urgentemente no Brasil, é aí que tudo pode mudar ou ao menos amenizar. A respeito de reflexões políticas em canção, acho de uma valia sem fim, é uma reflexão mais rica e de melhor assimilação.

 

Por Renatto Manga

 

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