Sócio de Carteirinha – Ano 10

Em 22 de novembro de 1968, John Lennon, Ringo Star, Paul McCartney e George Harrison lançaram um disco sem nome, o décimo álbum gravado em estúdio dos Beatles. Assim, por não haver nome, ficou popularmente conhecido como “The White Album

Foto: Matheus Soares

Bruno Gouvea e Carlos Coelho no palco do Teatro Universitário com a banda Clube Big Beatles

A décima temporada do projeto Sócio de Carteirinha do Clube Big Beatles foi lançada. Na primeira etapa, a banda capixaba recebeu Bruno Gouvea e Carlos Coelho, ambos da banda Biquini Cavadão. O encontro ocorreu no dia 15 de março no palco do Teatro Universitário, na UFES, o mesmo cenário das próximas oito etapas que contarão com: Andreas Kisser (19 de abril), Leo Jaime (17 de maio), Charles Gavin (28 de junho), Emmerson Nogueira (19 de julho), Roberto Menescal (16 de agosto), Fernanda Takai (20 de setembro), Moska (25 de outubro) e Ivan Lins (22 de novembro).

A primeira etapa do projeto contou com novidades: após a banda Clube Big Beatles tomar o palco, ser ovacionada pelo público e cantar “Strawberry Fields Forever”; Márcio Yguer fazer um solo de “No More Lonely Nights” e Guto Ferrari explodir na canção “Yer Blues”, Edu Henning convidou Mark Trompson para cantar a canção “Golden Slumbers”, do álbum “Abbey Road” gravado em 1969 pelos Beatles. O convite surgiu para abrir uma série de participações de pessoas que acompanharam, de alguma forma, a banda capixaba nos 10 anos do projeto. Trompson é o tradutor oficial da banda. Vale ressaltar que o convidado provou que seu talento vai além de traduzir: foi excepcional na apresentação.

Foto: Matheus Soares
Mark Trompson estreando a série de participações dos amigos do Projeto Sócio de Carteirinha do Clube Big Beatles

A noite seguiu com “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, acompanhada à altura pelo público que lotou os setores A e B do teatro. Logo após houve uma homenagem a George Harrison que, se ainda vivo, completaria 75 anos no último dia 25 de fevereiro. A condecoração a Harrison contou com a canção “Something”, composta pelo músico em 1969 e lançada no álbum “Abbey Road”.

We Can Work It Out”, “Day Tripper”, “I Saw Her Standing There”, “Helter Skelter”, dentre outras canções, foram tocadas pelos integrantes do Clube Big Beatles antes do convite aos convidados da noite.

O projeto “Sócio de Carteirinha” tem como objetivo deixar os músicos convidados selecionarem a show-list. Assim, Bruno Gouvea e Carlos Coelho, inteirados da história do quarteto britânico, escolheram cantar parte do repertório do “Álbum Branco”, lançado em 1968, precisamente há 50 anos. Todavia, não esqueceram os clássicos lançados no mesmo ano como “Hey Jude” e “Revolution“. Em entrevista ao acadêmico Renatto Manga, para a Rede Interferência, Gouvea compartilhou o motivo da escolha do repertório: “Hoje será um show de celebração dos 50 anos; não por menos, eu e Coelho estamos com 51 anos. Então faz total sentido estarmos aqui realizando essa homenagem, essa apresentação”.

Os músicos do Biquini Cavadão entraram em cena após a devida apresentação de Edu Henning, líder da banda Clube Big Beatles, que não escondeu a admiração pelos convidados que já marcaram presença no projeto em 2014.

Foto: Matheus Soares

Bruno Gouvea, Carlos Coelho e Clube Big Beatles celebrando os 50 anos do “Álbum Branco”

 

Com “Come Together” os convidados iniciaram a celebração dos 50 anos do “Álbum Branco”. Carlos Coelho marcou a noite solando sozinho na guitarra a canção “The Long And Winding Road”. Os amigos de longa data não esqueceram “Back In The U.S.S.R”, “Dear Prudence”, “While My Guitar Gently Weeps” e “Blackbird”.

Assim como em 1968, e involuntariamente na carreira dos Beatles, as canções “Hey Jude” e “Revolution” ganharam a participação do público que cantou e provou que o “Álbum Branco” realmente necessitava de uma condecoração a altura.

Certamente Bruno Gouvea e Carlos Coelho deixaram espaço aberto nos corações dos presentes para acompanhar as próximas apresentações, no décimo ano ininterrupto do Projeto Sócio de Carteirinha do Clube Big Beatles.

ENTREVISTA COM BRUNO GOUVEA

Foto: Márcio Yguer

Bruno Gouvea concede entrevista ao acadêmico Renatto Manga momentos antes de subir ao palco da UFES
Momentos antes de entrar em cena, no Projeto Sócio de Carteirinha do Clube Big Beatles, Bruno Gouvea recebeu a Rede Interferência para um bate-papo exclusivo.

Na ocasião, Gouvea compartilhou a experiência de gravar com o lendário Renato Russo. Falou de como foi compor “Zé Ninguém“, presente na história das maiores manifestações políticas do país. Dentre outros assuntos, descreveu o sentimento em escrever a nova canção “Saudade é o museu do amor” em homenagem ao seu filho Gabriel, que faleceu em 2011.

Confira na íntegra a entrevista:

– Qual foi o momento que você teve contato com a obra dos Beatles? Há um álbum favorito do quarteto britânico que você tem como preferido?

Fui apresentado à obra dos Beatles por volta de 1976, quando minha mãe me deu de presente uma fita cassete, que era um disco chamado “Collection Of Oldies But goldies“. Esse álbum era, basicamente, um dos maiores sucessos da banda antes dos “Sgt. Pepper’s“. Esse disco tinha várias canções, como “Yesterday“, “Yellow submarine” e “Can’t Buy Me Love”, mas o interessante é que, na minha infância, como eu ouvia muitos discos de compilação, com vários artistas, eu achei que esse era mais um disco de vários artistas. Não imaginava que quem cantava “Michelle“, era a mesma banda que cantava “Yellow Submarine” e “Help“. Aquilo foi para mim uma coisa impressionante. Com meus 14 anos comecei a entender o que era os Beatles; aí então fui apresentado ao álbum Vermelho e ao álbum Azul. Foi nesse momento que fui descobrir cada disco dos Beatles lançado, o que eles tinham e o que eles faziam. Se tenho algum álbum preferido? Acho que cada álbum tem uma história, tem uma coisa legal. Mas há um álbum que, para mim, é muito importante: eu fui viajar em 1983 para a Inglaterra, para estudar durante as férias, e lá peguei um inverno rigoroso, muita neve. Estava, mais especificamente, no interior da Inglaterra. Na casa da família onde eu estava não havia muitos discos, mas eles tinham o “Beatles for Sale” e esse foi o disco que eu ouvi todos os dias durante aqueles dois meses e ele acabou chamando muito as minha atenção. Quando coloco esse disco para tocar, eu volto no tempo, volto exatamente naquele período dos meus 16 anos, uma mistura de medo e saudade do Brasil, querendo voltar logo e ao mesmo tempo tendo que estudar nas férias. Esse álbum, sem dúvidas, me marcou bastante.

Foto: Matheus Soares
Bruno Gouvea e Carlos Coelho em 2014 no Projeto Sócio de Carteirinha do Clube Big Beatles

– Há exatos quatro anos você e Carlos Coelho subiram no palco do Projeto Sócio de Carteirinha pela primeira vez. O que os “Beatlemaniacos” podem esperar de diferente hoje em relação à primeira apresentação?

Na primeira apresentação, em 2014, eu e o Carlos Coelho selecionamos um repertório falando dos Beatles após os Beatles, onde tocamos “Jealous Guy” e “Tomorrow“. Nessa noite vamos focar nos 50 anos do álbum Branco. Vamos tocar, além de algumas músicas do “Álbum Branco”, músicas que também foram lançadas em 1968, como foi o caso de “Hey Jude” e “Revolution“. Hoje será um show de celebração dos 50 anos; não por menos, eu e Coelho estamos com 51 anos. Então, faz total sentido estarmos aqui realizando essa homenagem, essa apresentação”.

– Assim como sugerido por Hebert Vianna, por que o nome Biquini Cavadão e não Hipopótamos de Kart?

Não gostamos de hipopótamos pois achamos que, com o tempo, a gente ia engordar e o pessoal ia dizer: “lá vêm os hipopótamos” (risos). Então pensamos que esse negócio não iria ser bom. E Biquíni Cavadão a gente nunca pensou em ter como nome, só que o Herbert insistiu muito. Então, para agradá-lo, dissemos: “tudo bem!“. Pensamos que ia durar uma semana, mas ficou. Às vésperas de assinar um contrato, olhamos uns para os outros e indagamos: “É isso mesmo? Vamos assinar como Biquíni Cavadão?“. Herbert disse que olhava a gente, e via que éramos muito mais novos que ele, que se ele fosse novo como nós éramos, ele só gostaria de falar de carros, mulheres e biquíni cavadão. Daí você pode ver que o outro nome sugerido por ele tem ligação com carro.

Foto: arquivo / Biquíni Cavadão
Foto de divulgação do álbum “As Voltas Que o Mundo Dá” do Biquíni Cavadão

– Em 1986, o Biquini Cavadão gravou a canção “Múmia”, com Renato Russo, vocalista da lendária banda Legião Urbana. Como ocorreu essa parceria?

Foi a primeira vez que ele gravou fora do Legião Urbana. A gente fazia muito programa de TV, e essa era uma época que o Legião também fazia. Depois eles foram se afastando da TV e fazendo o mínimo possível. Então a gente se encontrava muito nos bastidores da TV e ficava batendo altos papos. Os programas eram muito demorados para serem gravados, assim ficávamos horas conversando. Naquele período estávamos gravando um novo álbum e tínhamos o desejo de contar com uma participação. Eu sempre disse que gostaria da participação de alguém que realmente cantasse, com um vocal legal. Aí surgiu a ideia de convidar o Renato, que sempre admirei como cantor. Se não me engano, o programa que rolou o convite foi no Chacrinha. Assim, o convite foi feito e ele prontamente topou. Era novidade para ele essa parada de participação. Foi um momento que marcou o Biquini. Uma vez a gente se encontrou no palco com o Legião e ele (o Renato) foi direto: “Cara não me peça para cantar ‘Múmia’ que eu não sei mais a letra” (risos). Depois do estúdio nunca mais cantamos esta música. Em 2001 fizemos uma regravação dela, e através do computador a gente conseguiu colocar a voz dele no novo arranjo. Muitas pessoas conhecem “Múmia” pelo novo arranjo e não pelo de 1986.

Confira o Vídeo:

– A canção “Zé Ninguém” conta com mais de duas décadas e, como poucas, é tão atual no seu contexto social. Você imaginava, ao compor a música, que ainda hoje o Brasil caminharia a passos tão lentos?

Infelizmente! Eu não gostaria que fosse assim. Na verdade, “Zé Ninguém” foi feita para falar sobre axiomas: coisa que você estabelece como a mais pura verdade, absoluta e incontestável. Nela também há frases de efeito como “homem não chora“, “Deus é brasileiro” e “amar é sofrer“. Foi meio que, durante o período Collor, a gente acrescentou algumas questões políticas nela, mais sociais eu diria. Essa canção é tão verdadeira que foi cantada para o impeachment do Collor e também foi cantada nas passeatas para tirar Dilma. Ou seja, são posturas políticas aparentemente diferentes mas a música entrou como uma luva naquelas manifestações.

“Meu filho nunca assistiu

a um show meu,

mas agora

ele tem cadeira cativa

nas minhas apresentações.”

Bruno Gouvea

 

Foto: arquivo pessoal
Bruno Gouvea e seu filho Gabriel que morreu em 2011

– Por você ter compartilhado num programa de TV que não se sente incomodado em falar da morte prematura do seu filho Gabriel, ocorrida em meados de 2011, sentimos o desejo de perguntar: você compôs ou pensa em compor uma canção que descreva esse amor de pai e essa dor que somente quem passa por ela sabe?

Nosso novo disco tem uma música chamada “Saudade é o museu do amor“, que, na verdade, tem uma história toda por trás. Eu estava fora do país quando o meu filho morreu, eu estava compondo uma música com uma cantora americana, a Beth Hart. Eu e o Coelho estávamos na casa dela em Los Angeles. A Beth é uma incrível cantora e sentimos o desejo de compor com ela naquela época. Começamos a compor uma música chamada “Good Enough” (Bom o bastante). Nela há um momento em que falávamos nos versos o seguinte: “Seja firme, seja forte porque às vezes a vida pode te faltar“. Mal sabia eu que, de certa forma, aquilo estava parecendo com o momento que eu estava prestes a enfrentar. A música era muito boa. O Liminha, sem saber de nada, falou para mim: “Vamos colocar essa música no disco?“. Mas ela estava toda em inglês, tínhamos que fazer uma versão em português. Quando completou cinco anos da morte do meu filho, o Coelho, sem lembrar que era exatamente naquele dia que meu filho tinha partido, mandou uma letra. Nela, era como ele sofresse tudo aquilo que sofri, e tudo muito bem colocado, foi muito bonito. Respondi de imediato: “Cara, eu nunca tive vontade de compor sobre isso, mas você escreveu tudo de maneira tão bonita…“. Não haveria maneira de cantar essa música sem tocar nesse assunto, não havia como escrever outra letra que não fosse aquilo que vivemos. Assim, não abri mão de escrever o refrão. Comecei a escrever o refrão, falando sobre isso: que a saudade é o museu do amor, apesar de tudo, as pessoas apenas passam a morar dentro da gente. Eu nunca quis muito gravar sobre isso, pois seria o meu “Tears in Heaven” (canção composta Eric Clapton no período da dor de perder seu filho Conor de apenas quatro anos), e eu acredito que quando tocamos no show não é pra gente, não é bom dividir essa tristeza. As pessoas vão ao nosso show para se divertir e não para sofrer. Sempre pensei que, se eu tivesse algum problema, eu utilizaria a coxia para chorar e não levaria para o palco meu mau momento. Meu público não pagou ingresso para ver a minha dor. Ali tenho que fazer o meu melhor: alegrar e divertir. Tenho hoje como meta fazer um show melhor que o outro, pois sempre penso que meu filho nunca assistiu a um show meu, mas agora ele tem cadeira cativa nas minhas apresentações.

– Em recente entrevista ao site da Rádio Transamérica, você compartilhou o desejo de gravar com Tiago Iorc. Esse desejo ainda permanece? Há outros nomes com quem você tem o desejo de gravar?

Eu acho o Tiago Iorc um fenômeno, um cara muito bom. Vamos ver se rola essa parceria. Estamos preparando um projeto muito legal para esse ano, o álbum “Vou te levar comigo“, que é o nome de uma música do Biquíni. Descobrimos vários artistas que têm um apreço pelo nosso trabalho, e que são de outros estilos musicais. Achei legal fazer essas músicas do Biquíni com artistas de outros nichos. Estamos pensando em Guilherme Arantes e Tiago Iorc, por exemplo. A respeito do Tiago, saiu uma nota na imprensa, que me deixou muito embaraçado: a nota dava como certo que estávamos fazendo uma parceria. Com isso, tive que mandar, inclusive, uma mensagem para ele, informando que a tal nota saiu totalmente distorcida. Tudo se deu depois que manifestei o desejo de gravar com ele, já que acho o trabalho dele muito bom. Disse apenas isso e ponto.

– Você já deixou explicito que não curtiu a utilização da melodia de “Tédio” na música “Adultério” de Mister Catra e disse que só fez para não ter uma postura de censurador. No momento em que você liberou o uso da melodia você já tinha o conhecimento do conteúdo da letra que ele introduziu na melodia?

Na verdade ele fez uma paródia! Conhecia o trabalho do Mister Catra antes mesmo do uso da música “Tédio“. Eu já sabia que existia um funk, inicialmente eu não gostei e acabei voltando atrás, pois não me cabe fazer papel de sensor. Eu não gostei exatamente por conhecer a letra e liberei para, de certa forma, dizer: “Olha! Apesar de eu não gostar, estou liberando“. Não se trata de um caso de alguém que pediu uma liberação de uma música dizendo que ia fazer uma paródia e depois começou a cantar e por isso não gostei. Ele pediu a liberação da música para ele colocar a letra que ele queria. Ressalto que eu já conhecia a letra em questão e vi que não era legal. E meu dilema foi: liberar ou não liberar nossa música para um conteúdo desse tipo? Pensamos: é melhor liberar! Vamos ser sinceros, se tivéssemos proibido, até aumentaria a execução dela e a gente iria ficar com o papel de bobo: “Olha a música que os caras do Biquíni tentaram proibir“. Acreditamos que, se alguém tem que censurar, esse alguém é o público. E o público não censurou. Embora doa na minha própria carne, há uma frase atribuída a Voltaire – que, porém, não é dele -, que diz: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la“. É mais ou menos por aí.

Por Renatto Manga

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