De Matheus Zardini

21 de maio de 2018. É manhã. O avicultor Civaldo Schultz fez algo que é de costume – ligar a televisão para ver o noticiário. De repente, ele soube que tinha começado a primeira paralisação dos caminhoneiros do país e que prejudicaria a entrega de cerca de 9 mil ovos que são produzidos diariamente na granja dele. Nas primeiras horas após o início da paralisação, Civaldo, que mora em Santa Maria de Jetibá, na região Serrana do Estado, não tinha noção de como a greve que durara 10 dias afetaria outros 152 produtores que trabalham com avicultura.

Foto: Matheus Zardini

Não foi só este setor da economia que foi afetado, mas foi o que mais saiu prejudicado. O Espirito Santo, assim como todo o país, viveu uma greve que parecia não ter fim. Sem os caminhões circulando, o Estado, que é o quarto maior produtor de ovos do país, se viu diante de um problema que poderia comprometer a produção. Nos dias de paralisação, o que se viu foi um desabastecimento nas granjas do Espírito Santo. No interior, pequenos produtores tiveram que sacrificar animais. Sem condições de escoar a produção, faltou espaço para armazenar ovos. Para superar esse momento, a união fez a força e as cooperativas desempenharam um papel crucial para que a situação não se agravasse.

Por mais que durante este período a situação fosse preocupante, Civaldo pôde respirar aliviado. No mesmo dia o produtor recebeu uma ligação da Cooperativa Agropecuária Cento Serrana (Coopeavi) alertando sobre os procedimentos que deveriam ser adotados já nos próximos dias para evitar que faltassem alimentos para os animais. “No momento que começou a greve eles avisaram para diminuir a luz e alimentar as galinhas duas vezes por dia, para que elas consumissem menos ração”, disse.

Neste período, Civaldo que é acostumado a receber 8 toneladas de ração por semana, recebeu 4. Ele conseguiu alimentar todas as galinhas com a quantidade de ração que foi disponível. Desta maneira foi possível mantê-las saudáveis sem prejudicar a produção dos ovos.

Para saber se a quantidade de ração que foi entregue pela cooperativa estava  adequada e se as mudanças na iluminação estavam dando certo, a Coopeavi manteve contato constante com Civaldo e com outros 74 produtores associados. Dessa forma, os cooperados estavam sendo supervisionados e cientes de qualquer intervenção que poderia ser feita para manter a produção.

Quando chegou o fim da greve, o Civaldo que tem 10 mil aves e produz cerca de 25 caixas de ovos por dia, conseguiu manter a produção sem prejuízos. Ele contou que a cooperativa seguia a risca o que prometeu, não tendo perdas, nem problemas para alimentar os animais ou para passar os ovos para a cooperativa. “Sou associado há 10 anos, fiquei muito feliz com o compromisso que a Coopeavi teve com a gente, ela deu um show!”, pontuou.

Da mesma forma que Civaldo, o avicultor Horácio Muller, de Santa Leopoldina, também ficou sabendo da greve pelos noticiários, mas não se preocupou porque a cooperativa entrou em contato falando sobre algumas ações que seriam feitas até o final da greve. “Eu honestamente não tive preocupação, pois a ração eu deixo por parte da cooperativa e associo 100% das minhas atividades a ela”, contou.

Horácio também é associado da Coopeavi há mais de 10 anos e toma conta de 9500 galinhas que produzem cerca 8550 ovos por dia. A cooperativa entrega rações duas vezes por semana, totalizando 7 toneladas e mesmo durante a paralisação, as entregas foram mantidas.

Força-tarefa

Para que esses e outros produtores não tivessem problemas tanto na captação de ração quanto na venda de ovos, foi feita uma força-tarefa pela Coopeavi. Juntaram-se as equipes de produção, gerência executiva, equipe técnica de campo e outras equipes com o mesmo objetivo, para que o associado não sentisse a crise.

A mudança no processo de fabricação de ração para as galinhas foi uma das medidas adotadas. Normalmente a cooperativa produz cerca de 6 a 7 mil toneladas de ração por mês em duas fábricas, uma fica em Baixo Guandu e outra em Santa Maria de Jetibá. Desse total, 90% são entregues para os cooperados e 10% são vendidos para os que não são associados.

Mas, durante a paralisação, a equipe do setor de rações tomou algumas medidas para evitar que os associados tivessem prejuízos. Realizou-se um deslocamento das matérias-primas, como o milho e a soja da fábrica de Baixo Guandu para Santa Maria de Jetibá. E lá, a cooperativa que trabalha com cerca de 30 tipos de rações, trabalhou com apenas uma, a Coope Postura Peak Mega que além de ser a ração que possui uma das mais baixas inclusões de Farelo de Soja, também é considerada uma ração intermediária entre as fases, que atende as demais idades de aves sem ter um impacto na produção dos ovos.

Além disso, houve um racionamento de ração para os produtores. “Promovemos o racionamento, começamos com 90%, depois para 80% e para 60% de acordo que foi postergando a greve. O racionamento estava aliado a estratégia por parte da equipe técnica de campo no controle de luminosidade da granja, para que as aves consumissem menos. Dessa forma, conseguimos segurar o impacto”, informou o gerente das fábricas de rações Coopeavi, Ederson Abelt.

Um outro fator que ajudou na fabricação da ração, foi quando o Governo Estadual conseguiu a liberação junto à Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) que permitiu que grãos que seriam exportados pelos portos do Estado fossem direcionados aos produtores. Foi um decreto que disponibilizou 6 mil toneladas de grãos de milho e 5 mil toneladas de farelo de soja.

“Ajudou muito, conseguimos ter fôlego para dois dias de produção. Estendemos de madrugada, fizemos períodos de até 24h para agilizar o processo e dessa forma não ficava caminhão parado no pátio”, contou Ederson.

Infográfico: Matheus Zardini, Gabriel Victor e Yhury Milholi

De acordo com o Secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (SEAG), Paulo Roberto Ferreira, estabeleceu-se um contato com as lideranças, principalmente do setor de avicultura para criar um trabalho junto ao governo. “A principal ação se deu quando o governador baixou o decreto. Permitindo transportar farelo de soja na região serrana, para que pudesse atender as granjas e com isso conseguimos ajudar o setor”, informou.

A liberação de insumos que o governo fez, só foi possível porque houve uma reunião entre a Coopeavi e a Associação dos Aviculturas do Estado do Espirito Santo (AVES).“Deu um volume para que conseguimos passar pela greve. Foi feito uma maneira para minimizar os impactos”, contou o presidente da associação Nelio Hand.

A união fez mesmo a diferença neste período, para pegar as rações que foram disponibilizadas pelo Governo, a cooperativa teve apoio de uma empresa de transportes que foi responsável por retirar o farejo de soja do porto, promovendo descargas em diferentes horários para que os veículos fossem descarregados sem grandes paradas agilizando o processo de retirada do produto mantendo o estoque da cooperativa. Ederson contou que a logística para entregar a ração aos produtores foi pouco impactada, sendo que a maioria dos clientes são do interior. “Pelo conhecimento que nossos motoristas possuem, foi possível usar rotas alternativas para conseguir atender a todos”, contou.

Entenda como o avicultor Solimar Berger se manteve durante a greve dos caminhoneiros:

A greve

A paralisação que ficou conhecida como greve dos caminhoneiros, teve a duração de 10 dias e aconteceu entre maio e junho deste ano. Os caminhoneiros paralisaram rodovias de todas as estradas do país, fazendo com que não passasse nenhum tipo de caminhão, a não ser aqueles que estavam transportando materiais hospitalares.

Os caminhoneiros manifestavam contra as políticas de preços da Petrobras, principalmente a variação do valor do óleo diesel. Durante este tempo, diversos setores tiveram problemas no Estado, além da falta de combustíveis, supermercados ficaram sem alimentos e o setor de avicultura – que não tinha associação com a cooperativa – foi o mais prejudicados, cerca de 100 mil pintinhos foram sacrificados por falta de alimento, produtores entregaram galinhas e ovos na frente da Assembleia Legislativa, outros vendiam as aves e os ovos por R$1. Esta atitude foi reprovada pela Aves, que considerou a prática como situação de desespero de alguns produtores.

Recuperação

Durante o período da greve, a Coopeavi trabalhou para minimizar os impactos perante a própria cooperativa, tanto nos atendimentos aos associados na recepção de ovos quanto nas logísticas de entrega das rações para que pudessem promover a alimentação em suas granjas. Dessa forma, não ocasionou nenhum prejuízo em questão do trato das aves, queda de postura e mortalidade.

De acordo com o gerente de Negócio de Avicultura da Cooperativa, Altemir Souza, a recepção de ovos continuou a mesma para que o produtor não sentisse o impacto da greve. “Recebemos a produção de ovos e remuneramos os produtores com o mesmo valor de mercado, o agricultor não teve nenhum prejuízo. Além disso, estocamos os ovos nos caminhões pronto para serem entregues quando a greve acabasse”, contou.

Assim que houve o fim da greve, a cooperativa conseguiu entregar em dois dias os ovos que estavam acumulados durante a greve. “Os carros estavam prontos para entregar os ovos que já estavam vendidos”, disse Altemir.

O único prejuízo que cooperativa teve foi em relação ao faturamento, como a cooperativa tem custos fixos e ficou neste período sem realizar as vendas. Mas a Coopeavi conseguiu realizar tudo que estava planejado, portanto não é possível calcular qual seria o prejuízo se ela não tivesse feito a força-tarefa.

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