Cooperativa capixaba investe no trabalho feminino e conquista resultados positivos dentro e fora das lavouras

por: Marco Martins

Marcela Takiguti (a primeira agachada) em uma reunião do núcleo feminino para discutir a ação social.

É bem cedo, no despertar da aurora que o trabalho no cafezal começa. De grão em grão, em busca dos mais maduros que se começa a seleção dos grãos do café especial. Trabalho que requer cuidado e capricho, atributos que a mulher rural possui para exercer sua atividade com maestria e que a torna tão especial quanto o café que cultiva. É nesse ambiente de terra fértil que as mães, esposas e filhas buscam um ressignificado de suas vidas. Estamos falando, é claro, do empoderamento da mulher no campo.

Para o filósofo, pensador e educador Paulo Freire o termo empoderamento significa “a capacidade do indivíduo realizar, por si mesmo, as mudanças necessárias para evoluir e se fortalecer”. Mudanças essas que podem ser constatadas pelo núcleo feminino da Cooperativa Agropecuária Centro Serrana, a Coopeavi.

Empenhadas a se transformarem em protagonistas de sua própria história, as mulheres da cooperativa têm conquistado, cada vez mais, espaço em setores do agronegócio como horti-frutti e o café. Estes segmentos sempre foram, predominantemente, ocupados pelos homens do campo. Foram! Hoje na Coopeavi esta máxima foi desconstruída.

O Núcleo de Mulheres da Coopeavi foi criado há três anos com o objetivo de, antes de tudo, promover o empoderamento da mulher na zona rural. A coordenadora do núcleo e bióloga da cooperativa, Marcela Takiguti, diz que esta promoção do gênero feminino se dá para que elas se tornem braços fortes no mercado agrícola. “A valorização das mulheres é hoje um dos parâmetros avaliados para que as empresas possam se tornar sustentáveis” fazendo com que elas ocupem posições de destaque em diversas frentes do agronegócio. E apesar do pouco tempo de existência, o Núcleo já vem apresentando resultados, principalmente no que diz respeito à superação de adversidades: em reuniões que são realizadas mensalmente, há exemplo de uma cafeicultora que superou a depressão graças às atividades do grupo. Em outro caso, uma agricultora com sérios problemas de mobilidade vem apresentando melhoras de maneira gradativa em virtude desses encontros.

Atualmente, a Coopeavi conta com quatro núcleos femininos, sendo que, o mais recente, foi inaugurado em 2017 na localidade de Alto Jatibocas, no município de Itarana, região serrana do Espírito Santo.  É nesta cidade com pouco mais de 10 mil habitantes que se predomina o trabalho familiar nas lavouras do café arábica. Um desafio para os agricultores da região, uma vez que é pelo zelo na mão de obra nos cafezais – da colheita até a distribuição – que a região é considerada uma das melhores produtoras de café especial do Estado.

Este reconhecimento não seria possível sem a contribuição feminina nas atividades rurais. E é nesse contexto que o Núcleo Feminino da Coopeavi possui um papel relevante na sustentabilidade familiar de cada cooperado. “No sul, as cooperativas já trabalham sustentabilidade das atividades com o desenvolvimento das famílias. E como se trabalha a família? Primeiramente, se trabalha a mulher. Uma mulher desestimulada não anima o filho a ficar na propriedade, não dá força para o marido e não tem novas ideias a agregar”, analisa Takiguti, que acredita ainda que a mulher possui elementos especiais que ajudam a complementar o homem na vida do campo. “Geralmente a mulher tem essa visão mais holística, de enxergar as atividades de uma forma diferente, mas ela só enxerga se tiver sendo valorizada”, completou.

Prêmio de melhor café

Foi com esse sentimento de valorização da auto-estima que a cafeicultora

Alessandra Sassemburg sagrou-se a campeã feminina do concurso Single Origin, um evento promovido pela própria Coopeavi e que tem como objetivo avaliar a qualidade do café. “Antigamente, só o homem tinha essa visibilidade na questão da premiação”, relembra Alessandra, que saiu vitoriosa na categoria feminina enquanto que o marido dela Sidney Grunewald conquistou o prêmio na categoria masculina.

Casal Vencedor: Alessandra Sassemburg e seu marido Sidney Grinavald premiados no concurso “Single Origin” que avalia a qualidade do café

O casal divide a vida em casa e no campo há dois anos. A dupla premiação mostra que a parceria e a união de esforços fazem a diferença também nas lavouras de café. “A gente acaba tomando gosto pela coisa, pela possibilidade de estar produzindo um café especial. É um trabalho feito com muito entusiasmo e alegria”, comemora Alessandra.

Para o vice-presidente da Coopeavi, Denílson Potraz, iniciativas como as do Núcleo, contribuem também para desenvolver o espírito empreendedor da mulher. “Quando a esposa é envolvida no processo produtivo, você acaba agregando mais valor na estrutura da família, pois a mulher passa a acreditar no projeto e a produzir junto com o companheiro produtos como doces, cafés especiais ou biscoitos”.

Responsabilidade social e ambiental também é uma das pautas do núcleo. Algumas mulheres atuam ativamente em ações sociais na própria comunidade, além de estarem engajadas em assuntos relacionados à legislação ambiental. Takiguti ressalta que um dos projetos que está para retornar é o programa Reflorestar do Governo de Espírito Santo cuja finalidade é recuperar áreas devastadas pela ação irresponsável do ser humano e estimular boas práticas sustentáveis. “No passado, algumas mulheres do núcleo chegaram a ser contempladas por reflorestarem parte da região”, disse a coordenadora.

“É importante demais o envolvimento das mulheres dentro desses núcleos, pois elas acabam beneficiando a própria cooperativa, os associados, o meio ambiente e toda a sociedade”, complementa o vice-presidente, Denílson Potraz.

Se no passado, o homem do campo era retratado como o provedor das necessidades do grupo familiar, enquanto que a mulher possuía um papel voltado para a maternidade e tarefas domésticas, hoje, a Coopeavi vem tentando desmistificar essa concepção, mostrando que a mulher possui um papel importante na economia rural, seja na cafeicultura ou qualquer outro setor do agronegócio. Graças a políticas públicas voltadas para a mulher do campo, a sociedade pode finalmente reconhecer a força feminina em diversas áreas. E no que depender da Coopeavi, o Núcleo Feminino continuará sendo referência de empoderamento no meio rural, rumo a uma agricultura mais justa e igualitária.

 

Confira abaixo o áudio da repostagem sobre o Núcleo de Mulheres da Cooperativa Coopeavi e as conquistas alcançadas nas lavouras de café:

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