Por Renatto Manga

O líder de uma das bandas de Rock Gospel mais respeitadas do nicho, Oficina G3, quebrou paradigmas dividindo o palco com o Clube Big Beatles no Teatro Universitário da UFES na capital capixaba

Foto: Matheus Soares

Que a noite do dia 17 de agosto foi histórica, disso não há dúvidas. Histórico para o Gospel, para o Clube Big Beatles e frequentadores do projeto “Sócio de Carteirinha”, realizado mensalmente pela banda que conta com o nome incluído no Hall da Fama do International Beatle Week. Noite essa em que Mauro Henrique disponibilizou sua potente voz para interpretar os sucessos do quarteto britânico que marcaram gerações e permanecem intactos até o século atual.

Em 1966, John Lennon, em entrevista ao “The London Evening Standard”, disse: “Nós somos mais populares que Jesus“. Certamente, a frase fora de contexto, publicada na época, possa vir de encontro ao presente contribuindo para que haja críticas ao músico Mauro Henrique. Porém, em 1969, três anos após a frase polêmica – à qual foi atribuída até mesmo a morte do integrante do The Beatles, em 1980 – Lennon explicou a distorção ao CBC. Mas – o que já era de se esperar – sua explicação não ganhou a mesma repercussão dada à sua fala pelo tablóide. Na ocasião, o astro explicou: “De fato, os Beatles parecem ter maior influência sobre a juventude do que Jesus. Agora, eu não estava dizendo que isto era uma boa ideia, até porque eu sou um dos maiores fãs de Jesus Cristo. Se eu puder mudar o foco dos Beatles para transmitir a mensagem de Cristo, então é isso que o grupo vai fazer. Talvez as igrejas não se encham por causa dessa mudança. Mas haverá muitos cristãos dançando nas casas de show. O que eles celebram, se Deus ou Cristo, não acho que seja importante, desde que todos estejam conscientes da mensagem do Evangelho“. Ou seja, um ponto a menos para a crítica.

Foto: Matheus Soares

Quando se trata do momento histórico para a banda e frequentadores do evento, além de ser a primeira vez em que um músico cristão se apresentava, após 9 anos interruptos do projeto, o início do show foi marcado pelo anúncio da despedida de Léo Teixeira, vocalista e contrabaixista da banda,  que já não se encontrava mais presente no palco. O motivo da despedida, repentina para o público mas administrada pela banda, foi a mudança do músico para o exterior com sua família. Juntamente com o comunicado, Edu Henning apresentou o novo integrante do Clube, Márcio Yguer, que além de músico é produtor e formado em Filosofia e Teologia.

Após a devida apresentação e somente com a Banda Clube Big Beatles em cena, a noite ganhou vida com a canção “Strawberry Fields Forever”. Diferente de tudo o que já ocorreu no palco durante as mais de duas décadas da banda, os meninos introduziram instrumental ao vivo à voz original dos Beatles na canção “Because”, gravada em 1969.  O resultado? Simplesmente incrível! A experiência será compartilhada na próxima semana no “International Beatleweek”, Festival dos Beatles em Liverpool. Dentre o vasto repertório da noite, um solo de tirar o fôlego em “A Day In The Life” ganhou a atenção do público.

No momento em que se deu a apresentação dos integrantes do Clube Big Beatles, Henning não dispensou seu tradicional modo cômico de se apresentar através da utilização de máscaras com personalidades do mundo artístico e político. Na ocasião, o homenageado da vez foi Barack Obama, ex-presidente americano. No discurso, o líder do Big Beatles falou: “Para o aplauso de vocês, um sujeito que entrou no jogo para criar confusão. Para o aplauso de vocês o cara que foi substituído pelo outro, e o outro é pior que o cara. Para o aplauso de vocês o sujeito que ficou para trás para o outro entrar com o topete arrumando encrenca e o povo está todo preocupado por causa do cara que entrou no lugar do outro que era gente boa. Mas o cara que é gente boa, não está nem aí para nada e o sujeito que entrou chegou somente para arrumar confusão”.

Mauro Henrique foi convidado para o palco depois de um discurso pouco usado anteriormente, em que Edu Henning disparou: “O convidado da noite é muito especial para nós. Primeiro porque é um grande representante do Rock e, acima de tudo, é um grande cantor gospel, um dos mais fortes cantores que a gente já teve oportunidade de ouvir, um sujeito com um nível de interpretação altíssimo e um nível de exigência muito grande. Sempre ficamos muito preocupados em convidar uma pessoa do segmento gospel, religioso, pois a chance de o artista dizer ‘não’ é muito grande. Mas não foi isso o que aconteceu. Quando o convite chegou até o nosso convidado, a resposta foi positiva imediatamente. Ele veio preparado, com a intenção de fazer legal e isso é extremamente interessante.”

O líder do “Oficina G3” mostrou a que veio ao cantar “Let It Be!”,  mudando a frase original “Mother Mary comes to me…” por “Jesus Crist comes to me…”. Mauro Henrique surpreendeu ao auxiliar com uma “mão amiga” o guitarrista Junior Curcio, cujo instrumento apresentou pane em meio ao show, que foi assistido nesse momento pelo convidado da noite que segurou o plug da guitarra a fim de minimizar o mau contato para que a música pudesse ser concluída. Mauro não parou de surpreender e foi ovacionado pelos admiradores da obra dos Beatles ao cantar “Black Bird”, acompanhado somente pelo solo de guitarra comandado por Mark Fernandez.

Sempre espontâneo e deixando explícito o seu respeito para com o som de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, Mauro encerrou a sua participação e a noite cantando “Obladi Obladá”.

Na plateia, além do público de todas as idades, destacava-se a presença do também cantor gospel Marcos Almeida, ex-Palavrantiga e da jornalista, advogada e fã dos Beatles, Marcelle Altoé, esta em companhia do filho Anthony Altoé, que deixou Venda Nova do Imigrante, interior do Estado, exclusivamente para acompanhar de perto Mauro Henrique interpretando Beatles. Questionada sobre o que achou da noite, Marcelle declarou: “Uma emocionante apresentação das mais belas e envolventes canções de todos os tempos!!! A Banda Clube Big Beatles sempre foi a melhor referência capixaba dos quatro rapazes de Liverpool!! O show foi diferentemente especial devido ao talento incomparável do cantor Mauro Henrique!! Já o conhecia da Banda Oficina G3 e sabia do seu potencial vocal que deu um brilho a mais às músicas dos Beatles!!! Parabéns a todos os envolvidos no projeto!!! Tenho certeza absoluta que retornarei inúmeras vezes!!! Quem sabe, um dia, não dou uma palinha com eles?! (risos)”.

Foto: Matheus Soares

Por fim, Mauro Henrique bateu um papo com a equipe da Rede Interferência, na ocasião representada pelos acadêmicos Renatto Manga e Patrícia Follador, quando compartilhou informações sobre o convite recebido para abrilhantar a noite do projeto “Sócio de Carteirinha” do Clube Big Beatles, os diversos trabalhos que desenvolve paralelos à Oficina G3, e a substituição de Leonardo Gonçalves pelo mineiro Eli Soares no projeto Loop Session + Friends enviando ainda um recado para os internautas que utilizaram o caso Daniela Araújo para atirar pedras e destilar das suas amargas opiniões. Confira a entrevista na íntegra:

Rede Interferência: Mauro, como se deu o convite para sua participação nesta noite em que a quebra de paradigma entre a música “secular” e o “gospel” se tornou pauta?

 Mauro Henrique: Sabe com quem os meninos do Clube Big Beatles entraram em contato? Com o Marcos Almeida que é daqui do Estado. Aí o Marcos passou o meu contato para o Edu. Ele me ligou, e eu pensei: “Que louco esse convite!” Nunca havia recebido um convite assim e achei muito legal. Eu não gosto desse rótulo “secular”, mas vamos dizer assim, que a galera do “secular” olhou para um cara do “gospel” e o viu como músico, como música, sabe? Fiquei muito feliz com o convite por conta disso e também porque eu gosto muito e sempre gostei de Beatles. É como eu disse em outra entrevista, para o Jornal ‘A Tribuna’: eu retenho o que é bom, fazendo o que a própria palavra de Deus fala, que em tudo há coisa boa. Se alguém falar que existe arte ruim e arte boa, sei lá, acho meio estanho falar assim, do mesmo jeito que o ser humano não é inteiramente ruim nem inteiramente bom. A gente erra, a gente tenta ser bom e erramos tentando. Eu acredito muito nisso: independente do credo das pessoas, quem anda com Deus, anda com Ele independente do local onde esteja. Se eu estou cantando em um evento, digamos “secular”, ou se eu estiver em um dentista ou em qualquer outro lugar, Deus estará comigo o tempo todo. E a expressão de Deus é justamente esse relacionamento, essa liberdade que a gente tem com as pessoas, sem pré-conceito, que acaba causando nos corações das pessoas reações do tipo: “Caramba, que Deus é esse desse cara?” Realmente as pessoas se fecham no seu quadrado e acham errado se relacionar com quem não acredita em Deus. Eu nem procuro saber no que acreditam, pois para mim não importa. O que importa é o meu relacionamento com Deus, a confiança que eu tenho em Deus e a vida que eu tenho com Deus. E a forma que eu vou me expressar para as pessoas, sendo elas o que forem, será sempre essa. Os caras do Clube respeitaram meu espaço todo o tempo, conversando com eles, ficaram de cara com meus papos e eu acho que era exatamente isso que Jesus fazia. Eu achei essa experiência linda!

Rede Interferência: Hoje sua carreira conta, além do vocal no Oficina G3, com o projeto Loop Session + Friends, aulas online e participações como a de hoje, por exemplo. Como você vem administrando essa vasta agenda?

 Mauro Henrique: Eu realmente trabalho muito. Confesso que estou precisando de férias (risos). Assim, a Tour do Loop Session + Friends está terminando agora; então estou começando a ficar mais tranquilo, mas em setembro o “Oficina G3” já está com a agenda cheia até o final do ano. Então, vamos trabalhando. O Oficina sempre foi o meu primeiro plano, então todos os meus finais de semana são exclusivamente para ele. O que sobra é de segunda a quarta, no máximo estendendo até quinta, esporadicamente. Assim, consigo realizar meus projetos pessoais, assim como os meninos do Oficina também fazem.

Rede Interferência: Ainda em se tratando do projeto Loop Session + Friends, como ocorreu a troca de Leonardo Gonçalves pelo mineiro Eli Soares?

 Mauro Henrique: O Léo já tinha avisado a mim, antes de começar o “Loop Session + Friends”, que ele ia dar um tempo em 2016, mas ele foi claro: “Cara, só não vou dar um tempo agora, justamente porque estamos nesse projeto e está muito legal”. Ele gostou muito da v.i.b.e, o Loop tem uma dinâmica muito diferente de qualquer outra coisa, foi quase um ano e meio com o Léo no projeto. Ele deixou claro que iria parar em 2017, anunciou isso depois, mas nós já sabíamos. Quando o Léo foi embora, eu nem pensava em nada mais além do que descansar, pois tivemos um ano de muito trabalho em 2016. Aí, depois de tudo, o nome do Eli Soares veio muito fácil, pois eu já gostava e gosto muito dele cantando, ele é um “animal”. Além disso, ele é uma pessoa muito boa, muito legal de se relacionar e a Tour está sendo incrível, estamos curtindo muito. Assim, não foi difícil escolher o Eli, eu só via ele. Mesmo com a galera cogitando nomes como Renato Vianna e outros, eu logo coloquei ele e está sendo S.E.N.S.A.C.I.O.N.A.L.

Rede Interferência: Recentemente tivemos o triste episódio ocorrido com Daniela Araújo, que tomou a opinião pública na internet e ganhou outro patamar de discussão: a intolerância com o erro alheio no meio cristão. O que você, como um influenciador do mercado cristão, aconselharia para futuros posicionamentos em momentos de tanta fragilidade?

 Mauro Henrique: Isso não é bíblico. Você pode ser um crente “xiita”, vamos dizer assim. Na verdade, em qualquer meio há pessoas “xiitas”. Seja no Candomblé, na política ou em outros meios, haverá sempre um cara “xiita”. No meio dos crentes, sendo assim a pessoa estará sendo como os fariseus e Cristo ia justamente contra eles. Cristo se sentava à mesa com pessoas que você não imagina, entende?! Porque Cristo era Ele o tempo inteiro, Ele nunca se separava; pelo contrário, ele trazia as pessoas para perto. Quando as pessoas são crentes e ficam julgando e colocando o dedo na cara dos outros, elas se tornam semelhantes aos fariseus e ao capeta, a realidade é essa. A naturalidade do nosso coração, do ser humano carnal, é essa. Mas a naturalidade de Cristo, da vida espiritual, não é essa, é uma vida de perdão, de misericórdia. A própria palavra falava para os judeus, ainda no velho testamento: “Misericórdia eu quero!” (Os 6:6a). A misericórdia está acima das coisas. Você ser perdoador, você ser misericordioso está acima das coisas. O amor prevalece, é o maior dom que há. Então é assim: quando a pessoa age apontando o dedo na cara e não ajudando, nem tentando entender o que está passando na vida da pessoa para estar acontecendo isso com ela, mostra o quanto a ausência de amor está em nossos corações.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here