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Com décadas de estrada, Moacyr Franco compartilhou as suas experiências no camarim do Clube Arci em Vila Velha. Foto: Maria Felicidade

 

Por Renatto Manga

Uma noite agradável de terça-feira, véspera do feriado de 2 de novembro, na casa de shows mais tradicional do Estado, o Clube Arci, em Vila Velha, o lendário artista Moacyr Franco recebeu o acadêmico em jornalismo Renatto Manga para um bate-papo exclusivo para a Rede Interferência. Na ocasião, Franco falou da sua parceria com a mãe do rock, Rita Lee, na canção “Tudo vira bosta” e de como nasceu a emblemática música “Ainda ontem chorei de saudade”. Foi sarcástico ao falar das leis do direito autoral e da polêmica PEC 241, além de liberar um sorriso ao comentar a conquista do prêmio de “Melhor Ator Coadjuvante” no Festival de Paulínia, interpretando o Delegado Justo no longa “O Palhaço”.

 

Leia a íntegra da entrevista:

O senhor domina diversas áreas da arte, seja cantando, atuando ou compondo. Qual é a que te dá mais prazer?

Moacyr Franco: Bom, dominar eu não domino nenhuma, mas eu venho “tropicando” em todas elas. O que me dá muito prazer é cantar. Não é que eu seja melhor cantando do que fazendo as outras coisas…  Eu gosto mais do que eu escrevo, acho que escrevo muito bem, mas cantar me dá muito mais prazer porque levo lembranças e alegria às pessoas e isso me traz satisfação.

Antes da parceria com Rita Lee, na composição de “Tudo vira bosta”, seu público era, digamos, das antigas. Hoje, muitos jovens conhecem e acompanham o seu trabalho na música, no cinema e na TV. Você pensa em honrar esse nicho do seu público com alguma outra obra?

MF: Não! Ali eu só voltei à minha origem porque eu comecei cantando rock. Quando comecei, eu cantava num conjunto de pretinho. Quando eu vim para São Paulo, eu cheguei a cantar músicas do Elvis Presley no programa da Hebe.  Quase morri afogado numa piscina fazendo graça e tudo o mais. Eu introduzi meus filhos no rock. Quando “Os Beatles” surgiram eu estava na Europa.  Mas como minha vida deu certo para o outro lado, eu fiquei na música mais romântica. A Rita foi importantíssima na minha vida porque ela me trouxe para um nicho interessante, eu passei a ir às faculdades para fazer palestras e tal…  Eu tenho uma música aí que eu estou tentando convencê-la a gravar, ela se chama “República Federativa do Bandido”, que é uma crítica evidente ao Brasil. Mas eu não vejo muita diferença nessa situação porque quando os sertanejos começaram a cantar as minhas músicas a juventude também veio atrás.

Na música, seu nome é fortemente ligado à composição “Ainda ontem chorei de saudade”. Como nasceu essa lendária canção?

MF: A maioria das minhas canções que fizeram sucesso é inspirada no momento. São músicas que têm a ver com um momento da minha vida, com um determinado sentimento, e este sentimento vira uma música. Essa música (“Ainda ontem chorei de saudade”) não! Foi totalmente profissional: um amigo meu encomendou uma guarânia para uma dupla de sobrinhos dele e eu fiz essa música, assim, no automático, como profissional. E ela acabou sendo o meu maior sucesso como compositor. Não é que ela não tenha inspiração – tudo tem -, mas foi feita assim, por encomenda. Já as outras não; a maioria das minhas canções são coisas que aconteceram comigo, que me inspiraram.

 No cinema, sua atuação no longa “O Palhaço”, interpretando o Delegado Justo, garantiu a premiação da categoria “Melhor Ator Coadjuvante” no Festival de Paulínia. Como foi para você ter o reconhecimento da crítica especializada nessa atuação?

MF: Ah, isso foi espetacular porque a crítica nunca foi favorável a mim em época nenhuma. E aí eu ganhei por unanimidade, não teve ninguém que votou contra mim. E eu era um coadjuvante mesmo, tinha três minutos em cena e acabei ganhando do próprio Selton (risos).  Então, foi muito bacana, embora eu não esperasse e nem soubesse que era candidato ao prêmio.

A forma como é conduzido o direito autoral no Brasil é criticada por diversos compositores. Como o senhor, autor de diversos sucessos, vê as regras vigentes?

MF: Eu também tenho crítica, mas não critico porque não vale mais a pena e não tenho mais tempo para isso.  A música sempre teve representantes que não tinham nada a ver com a gente, com os “popularão”. Eu nunca vi lá em Brasília serem chamados Altemar Dutra, eu, Timóteo, Nelson Gonçalves, Ângela Maria ou Cauby Peixoto. Nunca esse pessoal foi chamado lá. Era sempre chamada gente que era privilegiada pelo direito autoral. Eu não reclamo de nada, o que vier está bom e sigo a vida.

Você faz parte de alguma ONG de defesa dos direitos autorais?

MF: Não! Eu tenho coisas muito mais importantes para lidar. Meu negócio é defender a natureza, o grilo, o jacaré, o elefante, as folhas, as borboletas, o pé de conde, o alface, eu defendo é isso (risos). Não tem nada a ver com o ser humano nesse caso.

Você acredita que recebe o que é de direito de forma correta?

MF: Ah, eu acredito que recebo muito mais que eu mereço em tudo na vida. Está tudo bom demais. Uma pessoa que está com 80 anos, com a saúde que eu tenho, com a cabeça boa e essa capacidade criativa… Eu não tenho que reclamar de nada, tenho só que agradecer.

Você tem um vasto currículo e décadas de estrada. Te incomoda ser reconhecido por um pequeno grupo de pessoas somente pelos personagens críticos “Jeca Gay” e “Gabriel, a Caminho do Céu”, no humorístico “A Praça é Nossa”?

MF: Não é um pequeno grupo, é quase a população inteira. O meu bordão “chique no úrtimo” tomou conta do Brasil, “Chorei largado” todo mundo fala, o Gabriel todo mundo já me responde “Tô indo”… Não faço a menor questão de ser sucesso, eu quero só sobreviver.

Como figura pública, o senhor sempre se posicionou a respeito do cotidiano. Como cidadão, qual é a sua opinião a respeito da PEC 241?

MF: Eu acho que é uma PEC inútil, que aquilo é obrigação. Não tem nada a ver, não precisa de uma lei para dizer que você não pode roubar, que você não pode gastar mais do que ganha, isso é um povo sem vergonha.

 

 

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